©Joaquim Palminha Silva
(um
conto por semana)
A bola fria da Lua
reflectia-se nas águas do rio que, sujas e preguiçosas, serpenteavam pela
planície como linha divisória entre os campos plantados de arroz e o verde luxuriante
da selva. Terminava assim mais um dia oriental e indiano, fechando no ventre da
noite segredos e mistérios...
Na
margem pouco antes dos campos de arroz viam-se geométricas construções em
madeira, apresenta-se assim a «Missão da Companhia de Jesus» que,
com o seu hospital no centro do perímetro, fora erigida depois de 1624,
portanto, há séculos. Tudo isto nos arredores do porto de Mormugão, um dos
melhores embarcadouros da costa ocidental do Indostão...
Esta
Lua, única luz que recortava na terra a silhueta de homens, casas, bichos e
vegetação, parecia querer avisar o forasteiro que ali, homens de Deus vindos da
Europa, estavam prontos a responder ao apelo dos viajantes perdidos e, com o
seu saber, cuidar das suas feridas carnais e das suas chagas espirituais...
Não
corria o menor sopro. O vento sudoeste da monção reorganizava forças para
açoitar o mar Índico e costas vizinhas?! As sombras que a Lua projectava no
solo eram de uma imobilidade fantasmagórica, como se estivessem preparadas para
ilustrarem uma história de Rudyard Kipling. Por instantes, nem um ruído, nem
ladrar de cão nem piar de ave nocturna... Silêncio e sombras... Ruínas
abandonadas... Saudades do porto e dos seus marinheiros das “setes
partidas”, saudades escorrendo pelas paredes da vida, fazendo companhia
à humidade...
Mandando
parar o seu exército de espectros movediços, o “senhor das trevas” ficou-se a
ver uma sombra infantil, ligeira, que deslizava em direcção à porta do hospital
franciscano, colocando nesta pequena figura a esperança de tentar, fazendo mal,
os franciscanos. O silêncio forçado da noite foi retalhado, como som navalhado,
argentino: - A rapariguinha esquelética puxou o cordel pendente do portão, e
fez soar a sineta do hospital da Missão!
Ruínas
abandonadas, sombras espectrais sob a luz fria da Lua, águas sujas do rio, tudo
isso ficou para trás, recuado... Logo em seguida apareceu no limiar da porta do
hospital o Padre Emílio, erguendo uma lanterna à altura do rosto. A luz que o banhava completamente, mostrava-nos
um rosto de traços bondosos, calmo, onde brilhavam dois olhos serenos, de
fulgor raro, só a barba negra raiada de madeixas brancas punha gravidade na
figura do frade.
-
Que aconteceu? Quem és tu? (perguntou perplexo o jesuíta em
linguagem concani).
-
Sou filha de Karabad (respondeu a vozita trémula da rapariguinha,
como se a filiação fosse conhecida na Missão).
-
Entra então, minha filha...
A criança esboçou
um gesto assustado...
-
Oh! Não, meu Padre! Vinha buscar-te para viagem...
-
Para quê?
Com
aceno vago da cabecita, apontou com o indicador direito na direcção da margem
do rio, da obscuridade... Acrescentou então...
-
Lá adiante... Um padre branco como tu, caiu do cavalo... Está ferido.
Pede socorro...
-
Lá adiante, onde é isso, onde está ele?
-
Meus pais recolheram-no... Está deitado na choupana... Mas não sabem
tratá-lo... E ele geme e não fala concani...
-
E tu, como sabes que ele pede socorro?
-
Aprendi algumas palavras na escola da Missão....
-
Espera-me aqui... Já venho...
Cinco
minutos depois o bom Padre Emílio regressou e, transportando um estojo de
primeiros socorros numa maleta, seguiu a pequena indiana pelos meandros
inexplicáveis do rio.
A
rapariguinha esquelética, mostrava-se visivelmente intimidada, receosa,
afastando-se com brusquidão e conservando-se a uma distância demasiado
exagerada do frade, considerando que lhe estava a servir de guia... Só
respondia por curtas palavras às perguntas do missionário que, entretanto,
começou a estranhar o comportamento da petiza. Por fim, deixando de a
interrogar, Padre Emílio abandonou-se: «Seja o que Deus quiser!»...
E assim caminharam em silêncio durante muito tempo (horas?), o padre em largas
passadas de experimentado peregrino, a miúda em passinhos saltitantes... Na
atmosfera já se anunciava a aurora...
Súbito, um grito
lúgubre rasgou o tecido aveludado dos miasmas da noite. A pequena soltou uma
exclamação de terror e o missionário deteve-se, cauteloso... A cerca de uns cem
metros, entrevia-se a silhueta de uma pobre cabana de habitantes locais. O
grito veio dali.
-
Vamos! (exclamou o missionário) Pode ser que alguém tenha
necessidade de auxílio imediato.
Quando
o missionário chegou à abertura que fazia de entrada da cabana, dois vultos
semi-nus, agachados sobre uma esteira, ergueram-se a custo. Um casal de
camponeses dos campos de arroz vizinhos, de rostos sulcados pela mais profunda
dor e pelas fomes mais acutilantes, vigiavam um menino... Ao reconhecer o frade
da Missão, a mulher gritou delirante:
-
O Padre Branco! Oh! O Padre
Branco! Nosso filho está salvo! (disse a mulher na língua do gentio, o
concani).
De
facto, torturada pelas dores e pela febre, fora aquela criança que lançara o
grito lancinante, ampliado pelo silêncio e pela quietude traiçoeira da selva.
Padre Emílio ajoelhou o seu busto nobre na esteira de ráfia, à cabeceira do
doentinho. O menino partira uma perna ao subir a uma árvore e os seus ossos,
ligados por mãos rudes, faziam-no sofrer dores horríveis...
O
bom padre pensou em Deus, invocou o testemunho do «anjo da guarda»,
distribuído a cada criança na hora do nascimento... «-Felizmente que a
Providência me trouxe até aqui! Se não houvesse vindo atrás da menina, esta criança
ficaria aleijada para o resto da vida.». A filha de Karabad puxou
devagarinho a manga da batina de Padre Emílio:
-
E o Padre Branco que caiu do cavalo? (murmurou a esquelética
menina, vendo a demora de Padre Emílio)...
-
Deus o ajudará a esperar... Tenho de tratar primeiro esta alma
sofredora... (disse gravemente Padre Emílio).
A
candeia do missionário projectou sobre os rostos suplicantes do casal e a face
sofredora do menino uma luz tremente, torturada. A rapariguita seguia com
atenção redobrada os gestos do padre, que irradiavam doçura e segurança em
partes iguais, demonstrando-se ali a perfeita habilidade dos missionários para
salvarem corpos, além de ajudarem a salvar almas! Quando o experiente
“enfermeiro jesuíta” se ergueu e sorriu consolador, então os pais do garoto
suspiraram de alivio. Depois, disse em concani:
-
Está pronto! Deixem-no dormir sossegado, precisa de descansar. Amanhã
passarei por aqui, de forma a ver se precisam de alguma coisa...
Com
a cerimoniosa polidez oriental e hindu, o casal camponês, de mãos postas,
cumulou o padre de bênções, bem-hajas, floridas felicidades e não se cansava de
lhe chamar «Mahatma» (“grande alma”) ...
-
E agora, desembaraçados deste trabalho, vamo-nos depressa socorrer um
irmão aflito, minha jovem guia... (Disse Padre Emílio para a
rapariguita, perguntando) Ainda estamos muito longe?
-
Bastante! (respondeu com inesperada timidez a menina)...
O
padre notou a forma evasiva como a rapariguita enunciou a distância e pensou,
assim como assim, naquele Oriente profundo, os caminhos do Senhor têm um
alcance que nem sempre conseguimos descortinar... Adiante...
A
petiza estremeceu, quando um núcleo de nuvens cinzentas escureceu a Lua. Reteve
o missionário, puxando-lhe pelo hábito...
-
Padre... Espera... Mim... Eu...
-
O que dizes? Oh!, pobre menina! Estás cansada? É isso! (exclamou
Emílio, deitando um olhar compadecido ao magro rosto da rapariguita) Fiz-te
andar muito depressa! Bem sei... Bem sei... Nunca penso nos outros! Perdoa-me!
Que Deus tenha piedade de mim! Que egoísta sou! ...
- Não é nada
disso! Não é nada disso!
Retorquiu
a rapariguita com voz chorosa. Entretanto, apertou inusitadamente a mão de
Padre Emílio e implorou:
-
Vem, Padre, vem! Voltemos para a Missão!
- Voltar?
( o padre começou a suspeitar de alguma coisa... Mas o quê?)...
-
Não é verdade! Não está nenhum padre branco ferido em nossa casa... Não
há nossa casa... (dizia a rapariguita chorando convulsivamente).
-
Como?! Mas... então... É uma emboscada?!
Num
alcance bastante lúcido, o padre viu a verdade. Os motins, os últimos
acontecimentos políticos sobre a permanência dos portugueses naquelas
paragens... A alucinação das populações dirigidas por chefes fanáticos,
imaginando que os religiosos missionários eram conduzidos pelo frenesi da morte
e, remendos de cor na ocupação do território, não passavam de farrapos ao
serviço dos soldados coloniais...
-
Sim! Os homens que andam com espingardas na selva, querem fazer-te
prisioneiro! Querem pedir dinheiro a Toma pela tua liberdade...
Dos
lábios do jesuíta Emílio não saiu uma única palavra de censura...
-
Está bem, minha filha! Dou graças a Deus por ter tocado o teu coração,
ainda livre das maiores maldades... Mas não é Toma que querem dizer, é Roma! A
poeira nebulosa que vêm na religião de Jesus Cristo, faz imaginar que alguém
daria dinheiro pela minha libertação... Ingenuidade!
Caíram mais algum
tempo em silêncio. A rapariguita mal reprimia os soluços dentro do seu frágil peito...
De repente, vinda não se sabe de onde, a coragem empurrou-a e as palavras
começaram a sair:
-
Padre, eu sou órfã. Não tenho pais... Os revoltosos que me abrigam,
querem mal aos portugueses... Não os querem cá... Mesmo aos Padres Brancos, que
não andam armados nem fazem guerra. Dizem que os Padres da Missão vieram roubar
crianças para as levar para o País do Sol Poente, onde as assam e comem...
- E tu
acreditas?
Perguntou
o jesuíta, com um sorriso escondido. A pequenita juntou as mãos, como fazem
para saudar os indianos...
-
A princípio acreditei... Mas, agora... Quando te vi curar aquele menino, filho
de casta inferior... Foste tão bom para aquele miúdo... Acredito que os padres
da Missão não comem meninos!
A Lua descobriu-se,
passaram horas e era já manhã... Ao fundo a Missão, com a luz de presença
sempre acesa... Sempre acolhedora...
-
Deixa-me ficar na Missão, Padre! Eu não quero ir para a selva aprender a
dar tiros...
Com
lágrimas embaraçadas de desgosto, Padre Emílio explicou que não a podia deixar
entrar, sem autorização de algum familiar ou das autoridades indianas,
locais... Depois de ter dado passagem ao vulto angustiado do bondoso e austero
missionário, a porta da Missão fechou-se na face da petiza, figurinha tocada da
graça de Nossa Senhora, num mundo que se desgraçava... Dizem que até morrer o
Irmão Emílio, nunca mais falou concani, nem português nem nada!
*
...Naquele
hotel de Manhattan (Nova Iorque), Guilherme acabava de ouvir a história que
explicava o rudimentar português da distinta indiana e intérprete da ONU, a
Senhora Karabad... Que comovida, de olhar enternecido para o jovem lusitano,
rematou a narrativa dizendo:
-
O tecto da alma é a evocação!