24 Maio 2013

E foi-se embora sem pagar?!...



«A dívida aos agentes culturais e desportivos é de meio milhão de euros e fica aqui prometido: nem que eu tenha que empenhar a minha casa irei pagar a esses agentes todos, que é para acabarmos com isto e começarmos com regras novas. Nem que tenha que ser eu, pessoalmente, a fazê-lo, porque já não consigo ouvir mais essa conversa

José Ernesto Oliveira, em entrevista ao REGISTO, 24 Junho 2010.

QUER QUE LHE DIGA?

:
pior do que pedra
no sapato

é pedra-de-sal

entre a prótese
e a gengiva


Platero
(h)ortografias

«Viver um dia de cada vez»


©Joaquim Palminha Silva

«Sim, farei…; e hora a hora passa o dia…
Farei, e dia a dia passa o mês…
E eu, cheio sempre só do que faria.
Vejo que o que faria senão fez,
De mim, mesmo em inútil nostalgia.»

- Fernando Pessoa, in Novas Poesias Inéditas (2-8-1933),
edição Ática, 1979.
*

            As vidas humanas, mais do que tudo, são um caminhar nas veredas do vulgar, entre obstáculos materiais, tristezas sentimentais e pequenas satisfações muito rápidas, e não um cavalgar épico a caminho do sucesso material e espiritual. Creio de devem ser quase ignoradas as vidas supostamente felizes e serenas, tal e qual são repetitivas as numerosas vidas dos pobres, sempre amargas e angustiosas e, portanto, sem interesse algum para os “caçadores” de inédito, de fenómenos incríveis.

            Na verdade somos impelidos a percorrer sulcos forçados, gementes, aparentemente mecânicos, na vida fastidiosa de cada dia. E cada um de nós esforça-se por esquecer o mais rápido possível os dissabores, ou tapá-los com o que a sorte nos coloca à mão de semear.

            Quando tudo corre mal, os dias estão repletos de pequenas, mas aborrecidas, infelicidades e problemas sem solução à vista, a que se junta na maioria dos casos a escassez de dinheiro para sobreviver com o mínimo de dignidade, um dos mais badalados expedientes palavrosos usados pelo vulgo é dizer a si mesmo e ao vizinho do lado que, para se não enlouquecer nem desesperar de todo, é preciso saber «Viver um dia de cada vez!». Efectivamente, esta expressão não passa de “certificado” involuntário de vistas curtas da pobre gente que quer encontrar, num só dia, aquilo que um só dia nunca poderá dar.

            Oprimido pelos aborrecimentos e amarguras do quotidiano, o mesquinho etnocentrismo do temeroso vulgar declara logo que renuncia ao sonho, ao ideal, afastando de si a utopia como se fosse lepra, ao mesmo tempo que empurra para longe da sua pessoa os objectivos que, a longo prazo, a vida lhe possa apresentar, recusando todo o compromisso com os prodígios que, segundo uns Deus ou segundo outros a Natureza, lhe possa vir a facultar, em troca do suposto refúgio comodista num estreito pedaço de tempo: - «Viver um dia de cada vez»!

            «Viver um dia de cada vez», é expressão que condensa em si a definição de sentimento egoísta, por sua natureza estreito de vista e, por conseguinte, limitativo da humanidade que existe em cada ser.

            A infindável multidão de apáticos que existe na sociedade a pretender «Viver um dia de cada vez», nunca poderá compreender, nunca poderá ser igual aos que sonham e trabalham para a realização material do sonho, coisa que só se alcança ultrapassando a limitada noção do «dia de cada vez», de forma a ver o mais longe, no tempo e no espaço!

            Mesmo que muitos dos “lunáticos” do ideal sejam infelizmente atropelados pelos caminhos da vida, no seio do actual horror materialista, são estes “românticos” que, sacrificando o seu «dia-a-dia», contribuem para que haja um futuro com melhores condições de existência para todos, incluindo para os que não querem saber disso, entretidos a «Viver um dia de cada vez»!

            Enfim, a imensa turba dos apáticos, que falha por ignorância e egoísmo o seu “destino” humano e, sem Fé nem Esperança, traça para si mesma a tortura de «Viver um dia de cada vez», evitando assim de pensar no futuro, ao cabo e ao fim produz todos os dias “toneladas” de descrença com a sua atitude, poluindo, talvez sem consciência, o caminho em direcção a uma sociedade mais justa e, por este gesto, tornando-se aliada apetecida dos poderosos, dos déspotas, dos exploradores do Povo!

            A Humanidade e a sua milenária sabedoria, não é uma curiosidade de enciclopédia, mas alimento necessário e quotidiano para quem vive e caminha para lá do «dia-a-dia», mesmo que tropeçando aqui e ali, indagando qual deve ser o percurso justo e razoável, humano e útil ao próximo, a encetar na vida que lhe calhou habitar!

            Se a Humanidade se preocupasse apenas a «Viver um dia de cada vez», o Homem ainda estaria, provavelmente, muito próximo das cavernas do troglodita!

            Ter um sonho, pensar no futuro para lá do dia que passa, é possuir uma segunda vida, é viver no território do possível, é agir e vir de acordo com o que há-de vir, com a Utopia: - É começar a viver de acordo com a vida mais iluminada que há-de vir, para o tempo dos nossos filhos… Para todos!

            Não se amansa o perigo e a infelicidade a «Viver um dia de cada vez», cheio de medo do futuro!

            Com um pouco de amorosa intuição e generosidade de coração, se se tiver como guia a Fé no amanhã, veremos que coisa admirável é a inteligência ao serviço do Bem e da Justiça, porque sabe ver para lá do dia que passa!

23 Maio 2013

Dentro de 25 anos é que se vão ver os resultados...

«Évora dentro de 25 anos pode, e vai com certeza absoluta, atingir um estatuto de maior diferenciação, de maior especialização, muito com base nas realidades que hoje estão lançadas...»

José Ernesto Oliveira,
DianaFM, 23 Maio 2013

E, desta vez, pelas razões erradas, deve ter razão. É que o prazo de vigência do PAEL é de cerca de 20 anos. Nessa altura se verá quais os cacos que restaram...

CME: Até a imaginação e a criatividade desapareceram

Numa Câmara falida, desmotivada e em claro fim de ciclo, tudo se ensarilha e mesmo as tarefas mais simples se parecem transformar em empreitadas ciclópicas.

A esta realidade não escapam sequer a imaginação e a criatividade, duas virtudes que em tempos abundaram nos serviços municipais e que, agora, parecem ter desaparecido. E, senão, reparem nos dois cartazes a anunciar a Feira do Livro de 2012 e 2013, e tirem as vossas conclusões.

Pinto de Sá defende que a lei de limitação de mandatos tem “carácter territorial”

Carlos Pinto de Sá defende que a lei de limitação de mandatos tem “carácter territorial” e que “não pode impor restrições de liberdades, direitos e garantias” aos candidatos autárquicos.

O candidato da CDU à Câmara de Évora reagia à ação interposta em tribunal pelo Movimento Revolução Branca para impedir a sua candidatura à Câmara de Évora nas próximas eleições autárquicas.

A lei de limitação de mandatos, na nossa interpretação, é uma lei de carácter territorial. Portanto, não pode impor restrições de liberdades, direitos e garantias a cidadãos para se apresentarem às eleições”, afirma.

Para o candidato comunista, o Tribunal Constitucional terá “naturalmente” que esclarecer a lei, “uma vez que, de uma forma muito infeliz, o Parlamento entendeu não clarificar definitivamente esta situação”.

Carlos Pinto de Sá realçou que o Movimento Revolução Brancapretende ter palco para poder, através deste tipo de ações, apresentar aquilo que são os seus fundamentos ideológicos que estão muito perto da extrema-direita”.

(notícia DianaFM, 23 Maio 2013)

Alvos em movimento

Por razões que não são para aqui chamadas, estou a escrever esta crónica à luz da vela e com a esperança de que a bateria do computador aguente até ao final da tarefa.A estratégia não é nova e se alguma coisa esta maioria parlamentar lhe acrescentou foi apenas mais violência e crueza na sua implementação.

Os trabalhadores dos diversos sectores da função pública voltam a estar na mira do governo, que parece ser o único patrão com as possibilidades que todos os patrões desejariam ter.

De facto, o Estado é a única entidade patronal com o poder de mudar a legislação laboral para a adequar aos seus interesses mais imediatos.

Se decide despedir, aumentar o horário de trabalho ou criar condições para empurrar trabalhadores para regimes de mobilidade basta-lhe legislar no sentido de criar as condições para que tal aconteça.

É o único patrão que tem ao seu dispor os mecanismos que lhe permitem alterar unilateralmente as condições contratuais estabelecidas com os seus trabalhadores, que se pode dar ao luxo de romper o contrato social que outorgou com os seus reformados e pensionistas.

O ataque é de tal ordem que até a sempre bem comportada UGT admite recorrer a formas de luta convergentes com os sindicatos filiados na CGTP.

Entre outros tiros aos trabalhadores da administração pública, está agora a ser alvo da fuzilaria do governo o aumento da jornada de trabalho.

Acompanhado de uma campanha demagógica que pretende atirar trabalhadores do sector privado contra trabalhadores do sector público, esta medida é anunciada como um acto de justiça perante o que consideram ser uma situação de discriminação inaceitável.

A eficácia desta estratégia pode medir-se pelo número de observações e comentários nas redes sociais contra os “malandros” dos funcionários públicos ou pelo nível das intervenções dos participantes em programas do género da antena aberta.

Também acho que seria da mais elementar justiça equiparar as jornadas de trabalho de todos os trabalhadores por conta de outrem, independentemente da entidade patronal.

Não me parece justo que um mecânico no sector privado esteja sujeito a um horário de 40 horas semanais, enquanto um trabalhador com as mesmas funções na administração pública trabalhe 35 horas por semana.

Parece-me por isso da mais elementar justiça equiparar os horários de trabalho, aplicando aos que trabalham no sector privado o mesmo horário dos que trabalham na administração pública, ou seja, 35 horas semanais para todos.

Assim já não lhes convém? Não percebo porquê se o objectivo é apenas uma questão de acabar com uma iniquidade.

Ou esta coisa de nivelar quando se trata de salários é por baixo e quando se trata de horários de trabalho é por cima?

Espero bem que os trabalhadores da administração pública se mexam e lutem, já que têm de ser alvos que o sejam em movimento.

Até para a semana

Eduardo Luciano
in DianaFM, 23 Maio 2013

António Saias vai estar na Feira do Livro
Domingo, dia 26, pelas 18 horas

não sei se vai chegar-vos pedido de publicação de anúncio sobre Feira do Livro de Évora

mesmo que isso não aconteça, agradecia-vos que “anunciassem” a participação de PLATERO (António Saias) com o livro de poemas “H-ORTOGRAFIAS”

à venda no Stand “LIVROS DA RIA FORMOSA”

o autor estará presente, para conversa com leitores e sessão de autógrafos, no Domingo, 26, pelas 18 H

obrigado a vocês – abraço

Platero
(h)ortografias

É já no próximo sábado!

CGTP marca protesto para dia 25 de Maio, junto à residência do presidente da República, para exigir a demissão do governo.

MAIS QUADRAS P´RA PULARES

avisar, primeiro, que o Jornal de Notícias fez-me chegar informação/convite para participar no seu concurso de "Quadras Populares" sobre o tema "S. JOÃO"

terá feito o mesmo para milhares de cidadãos

pode não ter chegado a si, pelo que julgo de interesse informar desta realização

prazo de entrega de trabalhos já aberto, válido até ao fim do mês de Maio

Informação espero que chegue ao poeta José de Castro Nunes

IRS - tempo dele

cuidado que os usurários
que cobram nossos tributos
para além de salafrários
a cobrar são mesmo brutos

para efeitos tributários
eu penso neste momento
registar meus honorários
de pintor de cores do VENTO


Platero
(h)ortografias

22 Maio 2013

Irresponsável e leviano até ao fim…

Entrada da CME no sistema multimunicipal Águas do Centro Alentejo:

«José Ernesto Oliveira diz-se enganado por Mário Lino,
antigo presidente da empresa Águas de Portugal
…»
[Notícia DianaFM]


Esqueceu-se de dizer que Mário Lino cumpriu o seu papel na defesa da empresa que, então, dirigia.
Foi o Presidente da Câmara. José Ernesto Oliveira, e o PS, partido maioritário na Assembleia Municipal, que não cumpriram o seu papel na defesa dos interesses da autarquia, do concelho e dos eborenses!

MAIS DUAS QUADRAS DE S.JOÃO

1
alcachofras manjericos
copo de vinho na mão
só não há pobres nem ricos
nas noites de S. João

2
volta à Terra - em Portugal
faz o milagre do pão
acaba com o EXCEL
faz a nossa escrita à mão


Platero
(h)ortografias

Agentes Secretos, Guarda-Costas & Bazófias

©Joaquim Palminha Silva

«Supõe-se que tem uma rede de subagentes através da Alemanha
e comunica com o Q.G. por intermédio dos relatórios de negócios
que escreve à sua firma. O que o Q.G. não sabe é que de facto
Tripp não tem agentes nenhuns. Inventa todos os seus relatórios
e quando Londres mostra o seu desagrado por um agente ele
demite simplesmente uma fonte de informação imaginária e
contrata outra igualmente imaginária. É claro que cobra salários
e despesas por todos os agentes imaginários.»

- Graham Greene, in O Décimo Homem,
edição port. Ulisseia, 1986.

*

            Sonolento de tédio, o “Fado”, entidade “misteriosa” que preside aos destinos da classe dirigente lusitana, parece ter abandonado a lusa História, obrigando-a a cópia servil dos picarescos episódios da clássica espionagem estrangeira, assim se revelando que, em tal matéria, também Portugal anda de imaginação exausta…

            De facto, no Congresso realizado em Cascais (17/5/2013) sobre «Segurança e Cidadania», organizado pelo «Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo», o alto responsável pelo «Sistema de Informações da República Portuguesa» (SIRP), vulgo “serviços secretos”, anunciou que esta “discreta” instituição, “patrocinada” generosamente pelo orçamento de Estado, está a preparar o lançamento de uma «academia de inteligência», de modo a formar os seus próprios quadros…

            Saiba-se desde já que esta suposta «academia de inteligência» é definição desarticulada da língua portuguesa e, portanto, quer-me parecer que o seu significado é apenas transferência saloia da terminologia anglo-saxónica, provavelmente oriunda de mentalidade cativa da espionite cinéfila e hollywoodesca, acrescida do sensacionalismo próprio à Freguesia lusíada, naturalmente doseada com pitadas tomadas de empréstimo à tristemente famosa norte-americana, Central Intelligence Agency (vulgo, CIA).

            Se estes cavalheiros do «SIRP» já trazem preparadas nas “escravas” bagagens mentais estes tapetes exóticos, de fabrico estrangeiro, o que será que vão praticar para manterem a integridade da República Portuguesa?

            De resto, todos sabemos quanta ameaça paira sobre Portugal! Inimigos poderosos cobiçam-nos a dívida externa! Odientos exércitos acampam na raia fronteira na mira de recrutarem os nossos jovens desempregados como mercenários! No mar, ah!, no mar, nem sei se lhes conte: - As esquadras inimigas obrigam-nos a ter mais almirantes que navios de guerra em actividade, enquanto por terra nos vimos obrigados a ter perto de 200 generais para comandarem apenas 43 mil homens de armas, sob contratos de serviço ”patriótico”, a tantos euros por ano! Isto é, temos mais generais que a França, que a vizinha Espanha e que Inglaterra…

            Como qualquer europeu tem obrigação de saber, nós portugueses não brincamos em serviço: - A “fabricar” generais, almirantes e agentes secretos experimentadíssimos, somos, seguramente, os mais valentes da Europa!

            As fatais necessidades de quem só vive do passado histórico, e tenta sobreviver no presente municiando-se com imitações de opereta de Offenbach, haviam de ditar a extrema urgência na fundação de uma «academia de inteligência», para formação dos seus «quadros», perdão, de competentes, impecáveis «agentes secretos».

            Há um ditado brasileiro que sintetiza de forma genial esta mentalidade: «Em sítio de pobre o chuvisco é temporal.»!

            Pela leitura da imprensa (jornal Público, 18/5/2013) que se referiu a este congresso, ficamos a saber que o debate mais importante se centrou em torno das empresas de segurança privada (um mundo dividido por 120 unidades) que, é claro, querem substituir as autoridades policiais, reivindicando o porte de arma no transporte de valores e extensão da actividade à via pública.

            Enfim, tudo o que aqui se faz às vezes, nesta ocidental Lusitânia, é animar de uma vida de espionagem e guerra fictícia (felizmente) uma população inanimada pela grave crise económica, tal como antigamente se alegravam as crianças com bonecas, castelos recortados em cartolina estampada, polichinelos e soldadinhos de chumbo…

21 Maio 2013

Anúncios & crianças

A utilização de crianças em anúncios publicitários deve ser limitada e circunscrita a produtos ou serviços que estejam diretamente relacionados com os mais novos.

É assim que o determina o código da publicidade. Mas esta é só mais uma Lei que não é respeitada. Porque prejudica interesses dos maiores grupos económicos. E porque os responsáveis do estado português abdicam de a fazer cumprir.

A proibição legal prevista faz todo o sentido. Não é de todo aceitável que as empresas se apropriem da imagem de uma criança, com toda a carga afetiva que ela representa, personificando a inocência, o carinho, a candura e tentem transpô--la… para um balde de detergente ou uma antena de energia eólica. Isso constitui uma forma de publicidade enganosa e uma apropriação imoral da imagem dos miúdos. Por isso o código da publicidade o proíbe. E bem!

Mas, apesar de a legislação o impedir, têm sido inúmeros os exemplos de violação da Lei. A EDP utilizou crianças para promover energias alternativas, o Intermarché aviltou a sua imagem, erotizando meninas, para anunciar preços baixos, a Coca-Cola apropriou-se da imagem dum recém-nascido, condenando-o no nascimento a ser consumidor vitalício daquele refresco. Os exemplos repetem-se, sem controlo visível por parte das entidades competentes.

Em Portugal, as crianças não fazem parte da agenda política. À exceção de umas manifestações piedosas em tempo de Natal, ninguém se lembra delas. Cerca de 15 mil estão em instituições, muitas vezes em situação precária. São treze mil as que estão à mercê da violência doméstica, no seio de famílias desestruturadas, enquanto as autoridades, por falta de meios e de vontade, renunciam ao seu papel de defesa inabalável da integridade física e moral das crianças. Não é pois de admirar que nenhuma entidade intervenha no caso da publicidade que ilegalmente as utiliza. A tutela, nomeadamente a Direção-Geral do Consumidor, não atua. A Justiça ignora o assunto. Nesta matéria, o Ministério Público abdica da sua missão. E assim, as empresas que se sentem acima da Lei e persistem na ilegalidade, continuam impunes. É violado o estado de direito, desrespeitam-se as crianças. Aliena-se o presente e compromete-se o futuro.

Paulo Morais
in Correio da Manhã, 21 Maio 2013

O MEDO DA DIFERENÇA

Antes de assumir posições e expor convicções temos obrigação de refletir o que lhe está na base, só assim podemos ultrapassar os medos, entre eles, o medo da diferença que apenas conduz ao preconceito e ao desrespeito pelo outro. Para as crianças o que menos interessa é se têm dois pais ou duas mães, interessa-lhes, isso sim, não serem maltratadas, abandonadas em instituições, violadas, passarem fome, andarem a pedir esmola para alimentar os vícios dos adultos, serem vendidas, em suma, o que interessa à criança é que a respeitem, que a tratem como um bem precioso, que a tratem com amor, isso é o que eu, uma mulher de 50 anos com filhos adultos, e que convivo com crianças maltratadas, considero olhar ao bem supremo da criança. O preconceito ou o medo da diferença não fazem parte do universo mental das crianças, querem lá elas saber da cor de pele do adulto que delas cuida ou a sua preferência sexual, se é cristão ou muçulmano, se come de boca fechada ou se ergue o dedo mindinho quando leva o copo à boca, somos nós, os adultos, que lhes incutimos esses padrões negativos. Perguntem a uma criança que é maltratada, violada, que passa fome, que anda abandonada nas ruas ou está numa instituição, o que prefere; ser alvo de todas estas atrocidades ou ser adotada por 2 elementos do mesmo sexo? Aos equivocados moralistas deixo um desafio, coloquem estas questões de crueldade para com as crianças aos vossos filhos (mas na mesma forma nua e crua como aqui as descrevo) e preparem-se para uma grande surpresa nas respostas. A opção sexual não é um fator determinante no comportamento do individuo para com o seu semelhante, abram a mente e entendam isso. Não deveria chocar ver famílias de dois pais ou duas mães, o que deveria chocar a sociedade é a crueldade infligida a seres indefesos. Atentem bem nisto: Raramente os predadores são homossexuais. Já agora pergunto: se a maioria de nós foi educada por dois elementos de sexo diferente, como manda a santa sapatilha, o que é que falhou nesta equação para existir tanta criança maltratada e abandonada?
(…)
Ines
21 Maio, 2013 12:20

"Maldito Estado!"…

Cá estamos "nós", os que trabalham, os que pagam impostos, os que descontaram para a reforma e a segurança social, prontos para abdicar dos nossos bens e dos nossos direitos, para poder pagar os negócios ruinosos da banca.

"Nós" somos os que suportam o "maldito estado", que suportam a austeridade, e que pagam a crise financeira.
"Maldito estado", é o culpado por tudo o que correu e corre mal. "Maldito estado" que é formatado pelos governos gatunos, para lhes servir de "gazua" e "alavanca", ao serviço da banca.

Somos "nós" que pagamos a gestão ruinosa do estado, a dobrar.
- Pagamos a gestão do Zé Ernesto e apaniguados, que desviam os recursos municipais para suportar e investir nos ruinosos negócios da banca;
- Pagamos a gestão do PS e do PSD, que desviam os recursos nacionais para pagar os "prejuízos" da banca; pagamos a quebra da produção, da economia, do trabalho; pagamos a política desastrosa dos governos do Cavaco, do Guterres, do Durão, do Santana, do Sócrates, do Coelho, de toda a cambada que tem governado Portugal.

A culpa não é do "estado".
A culpa é dos governos gatunos, formados pelos partidos do bloco central, verdadeiras associações criminosas, impunes por lei.

O estado é gerido por gatunos.
O parlamento tem maioria de gatunos.
O presidente foi chefe de um governo de gatunos.
O conselho de estado é formado por defensores da gatunagem.
A justiça rege-se pelas leis que os gatunos cozinham.

Temos um estado estável.
Os pilares do estado de direito estão verticais, fiscalizam-se e equilibram-se uns aos outros, em uníssono.
Temos um estado de direito gatuno.
Seguimos o modelo siciliano.

21 MAIO, 2013 10:19

DUAS QUADRAS DE S. JOÃO - que bate aí à porta

ó meu rico S. João
queres mudar a tua sina?
- põe o borrego no chão
agarra-te à concertina

S. João meu S. João
vem folgar e dar ao pé
esquece de vez a traição
da perversa Salomé


Platero

(h)ortografias

Dívida do Évora Shopping foi executada pelo BES

«Évora Shopping já está nas mãos do BES»

O Évora Shopping já está nas mãos do BES. Tal como o Dinheiro Vivo noticiou este fim-de-semana, o centro comercial, que ainda está em construção, estava para ser executado, devido às elevadas dívidas, tendo agora já sido incluído num dos fundos de recuperação de ativos imobiliários que o banco gere.

Ao que o Dinheiro Vivo apurou, este fundo irá agora assegurar que a construção do centro é concluída, até porque 70% das lojas já estão pré-arrendadas, sendo este um dos ativos que o banco tem em carteira que mais pernas tem para andar.

É que neste fundo está também o antigo Beloura Shopping, agora Fashion Spot, onde há várias lojas a fechar e as que ainda estão abertas estão com salários em atraso. Este fundo tem ainda sob gestão o Ferrara Plaza, em Paços de Ferreira, o outlet Campera e o Acqua Roma, na Avenida de Roma em Lisboa.

O Évora Shopping, avaliado em 60 milhões de euros, abre no final deste ano, sendo já a segunda vez que o calendário da inauguração derrapa. Se de facto se concretizar, será o único centro comercial que vai abrir este ano em Portugal.

[Notícia DINHEIRO VIVO]

20 Maio 2013

E que tal pensar nas crianças?!

A semana passada demos um passo em frente. Verdade. Com orgulho o digo. Mas, ainda assim, não consigo compreender. Não consigo!... Foi possível ter uma maioria que aprovasse a co-adopção pelo cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo (ou seja, se um homossexual tiver um filho o seu companheiro/a pode, também, adoptá-lo), mas foi rejeitada a adopção por casais do mesmo sexo.

Já me debruçarei sobre os argumentos, mas gostava de salientar, e porque considero que é justo fazê-lo, que o projeto de lei apresentado pelo Bloco de Esquerda acerca desta matéria contou com os votos favoráveis de todos os deputados do BE e do PEV, da grande maioria dos deputados do PS, assim como de 12 deputados do PSD. Estes deputados livres de tacticismos e preconceitos, e pensando pela sua própria cabeça, votaram pelo progresso, pela mudança e pela defesa dos direitos humanos.

Infelizmente os restantes deputados abstiveram-se ou votaram contra, Falo-vos da grande maioria do PSD, e de todos os deputados do CDS e do PCP. Não comentarei esta votação, pois a evolução do pensamento que luta pela defesa dos direitos do Homem e da Criança, irá, brevemente, refutar as mentes ortodoxas e conservadoras.

Posto isto, gostaria de salientar que a adopção de crianças por casais homossexuais é normalmente vista pela comunicação social e pela maioria das pessoas, como um direito dos homossexuais. Na minha opinião, esta visão não é a mais correta.

A possibilidade de um casal ou um indivíduo isoladamente adoptar uma criança (tendo em conta que, em todos os casos, esta possibilidade e condições são escrupulosamente analisadas) é, sobretudo, um direito fundamental da criança.

Aliás, a Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas (ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990) reconhece o direito da criança a uma família e reconhece que a adopção deve assegurar o seu superior interesse.

Portanto, quando falamos de adopção falamos sempre do superior interesse da criança, daquilo a que a criança tem direito, e não tanto do direito de quem adopta.
Em Portugal, como sabemos, dezenas de crianças vêm-se privadas de serem educadas num ambiente familiar, seguro e pleno de amor, apenas porque o casal que as pretende adoptar tem o mesmo sexo.

Permitimos às crianças todas as formas possíveis e imaginárias para viver e crescer. Permitimos que vivam em instituições, permitimos que vivam só com a mãe ou só com o pai, permitimos que vivam em ambientes inseguros, permitimos que assistam a cenas de violência doméstica, permitimos tudo e mais alguma coisa, permitimos o que muitas vezes não deveríamos permitir… apenas não permitimos que elas possam viver, ser amadas e educadas por um casal homossexual.

Quem recusa esta lei, imbuído no preconceito e na falta de informação, não está a pensar no superior interesse da criança (como muitas vezes querem fazer crer), mas sim no seu próprio interesse, na medida que a dor provocada pela exposição ao seu mais profundo preconceito e debilidade na relação com o Humano e com as suas diversas formas de viver e sentir, é demasiado grande para permitir a flexibilidade e a mudança. Tristes daqueles que hierarquizam o humano e que se acham donos dos valores e das tradições…

Como profissional da área da saúde mental, aguardo que aqueles que dizem que a criança não pode ser educada por um casal de pessoas do mesmo sexo me façam chegar as evidências científicas que suportam esse facto, porque da minha experiência e investigação só encontro evidências a contrariar este preconceito.

Podem todos os casais homossexuais adoptar crianças? Não… Obviamente que não. Tal como nem todos os casais heterossexuais o podem fazer. A avaliação do ambiente familiar é crucial, mas nela os juízos de valor absurdos não cabem.

Que cada um dos deputados e deputadas que votou contra este projeto de lei saiba que tenho a convicção clara que negar a uma criança uma família, com base no ódio e na discriminação absurda, é um crime!

Até para a semana.

Bruno Martins
in DianaFM, 20 Maio 2013

DES-AFORISMO

gente grande
é frequente

não ser grande
gente


Platero

(h)ortografias

Afinal para que nos serve
a tenebrosa “máquina” do Estado?


©Joaquim Palminha Silva

            Chamem-lhe como quiserem, «Estado Social», «Estado Providência» ou simplesmente «Estado», o facto é que a tranquitana entrou em declínio acelerado no espaço lusíada, com os seus principais comensais (políticos e tutti quanti), especialistas, técnicos de “correias de transmissão” e “canalizadores” de bens públicos a descartarem-se a toda a hora das responsabilidades que, tradicional e nem sempre democraticamente, haviam assumido até ao presente, mediante chorudos pagamentos mensais e luxuosas mordomias e outros “brindes” inconfessáveis, só possíveis de acontecer a quem come á mesa do Orçamento”, esteja ela posta na capital ou na Província. Vejamos alguns sinais…

            O Estado diminuiu o número de beneficiários do «abono de família»; ausentou-se definitivamente de qualquer política de apoio à natalidade; orquestrou calculada diminuição do número de protegidos pelo rendimento social de inserção; manipula constantemente os fundos públicos, no sentido da subtração do já magro dinheiro das reformas dos trabalhadores, da aposentação e pensões dos funcionários da Administração Pública.

            Mas não basta, pois dando-se lascivo aos beijos frios da indiferença, o Estado assiste impávido e sereno ao aumento dos desempregados, sem o respectivo subsídio, e se porventura alguns conservam essa “esmola”, ela já sofreu cortes tais e tantos que nada está garantido, embora não se saiba para onde vai o dinheiro desse “mealheiro” feito à conta das carências mais básicas; pode dizer-se em poucas palavras, “mealheiro” feito à conta do sangue, suor e lágrimas de milhares de cidadãos portugueses!

            Em breve conclusão (vd., diário matutino Público,6/4/2012), desde 2010 que o Estado deixou de dar apoio familiar a cerca de 600 mil pessoas, enquanto 70 mil ficaram sem o seu rendimento social de inserção e 200 mil desempregados foram entretanto marginalizados, subsistindo (sabe Deus como!) sem qualquer protecção institucional.

            O desemprego cresce de mês para mês, alcançando números só comparáveis aos anos 20/30 do século XX. É assim que, seguindo este trágico dinamismo, no 1º trimestre de 2013 os sem-trabalho elevavam-se para 952.200. Como fatal associada da lusa tragédia, a emigração atinge níveis que nos remetem para os finais do século XIX e princípios de século XX, mas agora invadida por novo suplemento, de forma a melhor sangrar Portugal: - Os países do norte europeu (por exemplo, a Inglaterra e a Alemanha), através das suas grandes empresas, entram velhacamente no País para seduzir e arrastar para fora das fronteiras os nossos técnicos (depois de o erário público português ter investido na sua formação), naturalmente com cativantes salários mensais, como é o caso da descarada sedução de médicos e técnicos de enfermagem. Sabe-se lá quem vai a seguir…

            Assiste-se a um claro e gritante recuo do Estado na Saúde Pública, com o encerramento de Centros de Saúde em várias localidades, e a eliminação de alguns serviços nos hospitais públicos de Província (maternidades, por exemplo), ao mesmo tempo que se fazem acordos com empresas privadas para explorarem os hospitais. Grandes complexos industriais, outrora nacionalizados, foram vendidos ao estrangeiro (Siderurgia Nacional), que agora ameaça encerrar essas grandes unidades. Os CTT, paulatinamente abandonados pelo Estado, reduzidos ao mercantilismo do imediato, encerram “estações” em pequenas e médias localidades e, simultaneamente, desde que passaram a ter acionistas privados, apresentam-se nos postos abertos ao público em aberta concorrência com ramos de negócio para que não estão vocacionados, vendendo livros, bugigangas, etc., concorrendo mesmo com as instituições bancárias, enquanto prestam todos os dias serviços deficientes e tardios aos cidadãos, o que não os impedem de abusarem dos custos de serviços, como não se pratica em nenhum país da União Europeia.

            Num País com escasso número de crianças, com uma quebra demográfica assustadora e uma fragilizada população de reformados sem meios de subsistência dignos, com o continuado despovoamento das cidades e vilas do interior, as empresas de consumo privado aumentam todavia o investimento, numa progressão de estupidez (própria, aliás, do capitalismo) que até faz dor de cabeça, abrindo grandes centros comerciais em regiões com contínua diminuição de população e constante perda do poder de compra dos residentes. Tudo isto acontecendo sob a sonolência marroquina e indiferente do Estado que, olhando, assobiando e sacudindo moscas para o lado, se desinteressou de regular actividades, controlar expedientes dos grandes grupos económicos, arbitrar um pouco o caos semeado pelo agressivo liberalismo capitalista.

            Poderia continuar a alinhar exemplos desta propositada desistência do Estado, através dos seus agentes responsáveis, pela vida cultural, económica e social do Povo de Portugal, mas qualquer um pode encontrar, infelizmente, um municiado catálogo de desistências consecutivas…

            No entanto, acrescentemos a este panorama um “pormenor” paradigmático que nos dá imediatamente a noção da desresponsabilização do Estado, da desistência paulatina do seu suposto e antigo papel de árbitro de conflitos, de protector dos bens da Nação e defensor dos “humilhados e ofendidos”, dos mais fragilizados.

            - Evidencia-se com nitidez absoluta a ausência de pudor, a escassez de dignidade e o permanente desinteresse do Estado (na sua versão central e nas múltiplas versões regionais!) pela salvaguarda, protecção e manutenção de inúmeros estabelecimentos públicos (Hospitais, Universidades e estabelecimentos do Ensino Público, Municípios, Institutos, Museus, Tribunais, etc.), cuja guarda e protecção é entregue a empresas privadas de segurança, em vez de sua vigilância estar entregue às próprias unidades de segurança do Estado (Polícia de Segurança Pública ou Guarda Nacional Republicana).

            Num contexto desta natureza, é caso para perguntar: - Para que quer o Estado o nosso escasso dinheiro, ainda por cima fruto de trabalho mal remunerado? - Para pagar as dívidas que contraiu no estrangeiro, ao longo de décadas, sem nos pedir a opinião, sem se ralar com o que pensamos de obras, truques e disparates por uma pá velha?!

            Em troca do que lhe pagamos em impostos directos e indirectos, sistemático agravamento da carga fiscal a diversos níveis, taxas moderadoras disto e daquilo, aumentos dos custos dos bens essenciais (água, luz e gás), que recebemos em troca?

            - Quase nada! Pelo contrário, face às suas obrigações institucionais e cívicas, humanitárias e democráticas, com desapiedada frieza existe uma estudada, calculada e consequente desprotecção dos cidadãos, bem como o abandono sistemático de bens materiais e espirituais da Pátria.

            Para que nos serve um Estado desta natureza que, além do mais, se revela uma máquina dispendiosa, uma engrenagem kafkiana? – Apenas para recolher o rendimento do nosso trabalho, como tal e qual o antigo salteador de estradas que, para nos obrigar, nos aponta a “espingarda” dos Tribunais, municiada com os cartuchos das penhoras às famílias, entretanto já desgraçadas?!

            - A pretexto da grande crise (agravamento do défice, dívida e seu financiamento externo), temos um Estado que serve para levar a termo a cobrança de fundos nacionais para pagar a prestamistas estrangeiros, enquanto os seus agentes responsáveis se transformaram em seres híbridos, entre o vulgar cobrador e o” malfeitor de estrada”!

            Todavia, a dívida não para de crescer, e o dinheiro emprestado pelo estrangeiro a altos juros transformou-se num folhetim interminável…

            Em obediência a mandantes estrangeiros, se tudo o que sabem fazer os troca-tintas, gaiteiros de mente fanhosa e cabotinos que, associados, dirigem a tranquitana a que chamam Estado, é mandarem os lacaios organizar a cobrança de impostos, mais impostos e sempre impostos, não me dirão para que nos serve este Estado?!

            Não querem lá ver que, após os periódicos pagamentos de juros de empréstimos, o nosso Estado só serve para nos extorquir dinheiro com que se pague aos malandrins que o habitam os ordenados milionários, as mordomias de califas, os brindes familiares, os passeios ao estrangeiro, as viaturas automóveis de grande conforto e o seu cafezinho?!…

            Compreende-se…Os fura-vidas diplomados e os políticos da “banha da cobra” têm no Estado hospedaria estável, mesmo se ele se apresenta enorme «Hotel da Barafunda». A existência do Estado é um estaleiro permanente, como convém, para fazer de conta que se faz “obra”… No Estado governa uma providência peculiar das barrigas! Cá fora, o apocalipse, o espectro de todas as fomes perfila-se em cada esquina! Cá fora, onde todos nós nos encontramos, espera os devoristas do Estado a vida dispersiva e os acasos da vagabundagem (chiça!), talvez mesmo o desemprego!

            Nós não precisamos mais deste Estado! Enquanto eles estão cada vez mais necessitados de se lhe grudarem para sempre!

            Quando sairemos nós deste enquadramento fatídico, não me dirão?!

19 Maio 2013

Uma Cidade a definhar...

JUVENTUDE DE ÉVORA DESCE AO DISTRITAL!
Assim vai a cidade de excelência do PS. Um clube nos distritais e outro à beira da falência, já sem futebol profissional.

Para uma alternativa política ao PS
Para o futuro de Évora

«Carlos Pinto de Sá reúne com activistas da CDU das Freguesias da Horta das Figueiras e da Malagueira»
Carlos Pinto de Sá, Cabeça de Lista da CDU à Câmara Municipal de Évora e António Jara, Cabeça de Lista da CDU à Assembleia Municipal reuniram com activistas e simpatizantes da CDU das Freguesias da Horta das Figueiras e da Malagueira. A vitória da CDU nas próximas eleições autárquicas, a luta pela defesa e afirmação do Poder Local Democrático, onde se destaca a posição contra a extinção das Freguesias, a construção de uma alternativa à gestão de catástrofe do PS na Câmara Municipal e a importância da participação da população de todo o concelho, para que a CDU seja a alternativa para um novo ciclo político em Évora, foram questões muito debatidas nesta reunião da CDU.

«Candidatos da CDU à Câmara de Évora contactam com Instituições e Trabalhadores para uma alternativa política ao PS para o futuro de Évora»

O CERCO DE LENINEGRADO de novo em cena

de 22 a 26 de MAIO no IMAGINÁRIO
de 4ª a sábado às 21.30h | domingo às 16.00h
(marcação de reservas 962 667 914 ou 266 704 383)

Uma divertida, comovente e surreal história de duas mulheres: Natália e Priscila respectivamente a amante e viúva de Nestor, um director e encenador de teatro que morreu em circunstâncias misteriosas, enquanto ensaiava O cerco de Leninegrado.

Há mais de 20 anos que estas duas mulheres habitam um velho e abandonado teatro, o Teatro do Fantasma, agora ameaçado de demolição para dar lugar a um gigantesco parque de estacionamento subterrâneo. Desesperadamente as duas excêntricas mulheres tentam dar sentido ao seu passado buscando o manuscrito da peça inacabada onde esperam ver revelado o segredo da estranha morte do encenador… Terá sido acidente, ou assassinato?

O cerco de Leninegrado é uma reflexão subtil sobre o fim das utopias e a morte do ideal socialista versus a ascensão da “gratificante” cultura “fast food”.

GEO METRIA

não confundo
o mundo
com aquilo
que digo

o meu
centro do mundo
é o meu
umbigo

enfim

sendo meu umbigo
centro do mundo

não é
contudo

centro de mim


Platero

(h)ortografias

O discurso e a prática de uma gestão municipal...

De cima para baixo o discurso;
De baixo para cima, a prática.

No nosso partido cumprimos o que prometemos!
Só os tolos podem acreditar que
não lutaremos contra a corrupção.
Porque se há algo certo para nós é que
a honestidade e a transparência são fundamentais
para alcançar os nossos ideais.
Demonstraremos que é uma grande estupidez achar que
os interesses partidários influenciarão o município como noutros tempos.
Asseguraremos sem sombra de dúvida que
a justiça social será o principal objectivo das nossas acções.
Apesar disso, ainda existem idiotas a imaginar que
se possa continuar a governar com as artimanhas da velha política.
Connosco no poder, faremos o impossível para que
se acabem os privilégios e os favores.
Não permitiremos de modo nenhum que
os nossos conterrâneos não usufruam uma cidade de excelência.
Cumpriremos os nossos objectivos mesmo que
os recursos económicos se esgotem.
Exerceremos o poder até que
Compreendam que
Somos a 'esquerda moderna'.

Sintomas da Páscoa

Os bancos têm prejuízos porque não emprestam dinheiro. Para além de anti-económico é estúpido pois essa é a razão primeira da existência de bancos. Entretanto, o Presidente da República afirmou que o sucesso da última avaliação da Troika se ficou a dever à Nossa Senhora de Fátima. Foi uma das últimas árvores que se abateu.

É incerta a data em que os primeiros humanos puseram o pé na Ilha da Páscoa. Foi certamente antes do ano 1.000. Por volta de 1.600 a pequena ilha tinha mais de 15.000 habitantes mas, um século depois, quando os navegadores europeus lá chegaram só subsistiam 2 a 3.000 mil. Famintos, desorganizados, embrutecidos.

A história da Ilha da Páscoa é exemplar. Demonstra as consequências nefastas de uma exploração excessiva do meio ambiente. Mas revela mais do que isso. Alerta para os malefícios da vertigem religiosa, ou ideológica pois é similar. A decadência, a um ponto de não retorno, é a consequência inevitável do irracionalismo.

Com base numa crença semelhante a tantas outras, com os deuses lá no alto a exigirem coisas absurdas, os indígenas dedicaram-se à construção de enormes estátuas de pedra. Para o fazer necessitavam de madeira, a qual foi sendo recolhida por toda a ilha até se chegar a uma total desflorestação. Na voragem insana foram extintas 20 espécies de grandes árvores e todos os pássaros residentes. O que levou à incapacidade de regeneração ambiental. Sem madeira para erguer as hoje tão apreciadas estátuas, ficou-se também sem madeira para construir barcos e em consequência os recursos alimentares caíram brutalmente. A fome trouxe conflito e canibalismo.

A Europa parece decidida a empreender um processo semelhante ao da Ilha da Páscoa. Em nome de uma crença, que venera o domínio absoluto e totalitário da ordem financeira, vão-se consumindo recursos, naturais e humanos, até à sua extinção. Os governos mais fracos, donde o de Portugal e de outros países infelizes, vendem todo o património ao desbarato, atacam a sua própria população, numa submissão de tipo religioso ao dogma e seus feiticeiros. Não escapam idosos, crianças, famílias inteiras. O Estado, sedento de dinheiro para entregar aos credores, assalta literalmente os contribuintes. Numa sociedade civilizada e lúcida estaríamos perante verdadeiros casos de polícia.

A consequência de tudo isto é evidente. Estamos a seguir o caminho da Ilha da Páscoa. O que no contexto global vigente significa o declínio da Europa no mundo, já visível, e a sua colonização pelo outro mundo, o que não deixa de ser irónico. Veja-se como a relação Portugal/Angola se inverteu e são agora os angolanos que nos colonizam economicamente. Ou os chineses. Ou todos os que tenham dinheiro em caixa para virem aos saldos.

Os alarmes sociais tocam com estridência. Passar de pobre a menos pobre, pode ser enganador mas dá esperança. Passar do relativo bem-estar para uma miséria aberta ou envergonhada é desesperante e perigoso. O povo pode andar anestesiado com o futebol, as vidas fúteis dos famosos e a alienação de toda a espécie de crendice, mas, como diz o aforismo nunca se deve encurralar uma fera. E o povo pode mesmo ser feroz. Basta olhar para a história. Em França, numa dada época, cortaram a cabeça do rei, que não era um simples mortal mas um outro deus na Terra.

O conflito nacionalista, a guerra, os tumultos, voltam pois a ameaçar a Europa. Tanto mais que faltam alternativas. Não existe quem realmente faça frente à loucura dos poderes fracos, venais e sobretudo irresponsáveis. A política soçobrou. Os intelectuais aderiram à meditação zen, ou seja, assumiram o objetivo de esvaziar o respetivo cérebro.

Os sintomas da Páscoa estão aí. Nas decisões obtusas do conselho de ministros. Mas também nas pequenas coisas. Por estes dias o país enche-se de jovens palhaços, vestidos de batinas pretas e outros trajes ridículos, exercendo o pequeno poder fascista nas chamadas praxes e, à maneira da avestruz, metendo literalmente a cabeça na areia. Imaginam que alguém os irá salvar de um destino atroz. O maior. Não ter vida decente pela frente. Mas não vai. O desemprego jovem já roça os 50% e vai aumentar. Os bancos têm prejuízos porque não emprestam dinheiro. Para além de antieconómico é estúpido pois essa é a razão primeira da existência de bancos. Entretanto, o Presidente da República afirmou que o sucesso da última avaliação da troika se ficou a dever à Nossa Senhora de Fátima. Foi uma das últimas árvores que se abateu. 

Leonel Moura

in Jornal de Negócios, 17 Maio 2013

18 Maio 2013

Até quando?...

Até quando vão estar os ciprestes inclinados no jardim envolvente das muralhas?

No início do ano houve um dia de temporal que causou estragos por todo o país e também em Évora. Nesse dia, vários ciprestes que compõem o arranjo exterior da envolvente das muralhas ficaram inclinados. E assim continuam até hoje.

É algo que se podia corrigir com tutores e esticadores. Que diabo, é uma coisa que se faz com paus e cordas. Nem a falência da Câmara explica este deixa andar. Até quando vão as árvores ficar tortas?

17 Maio, 2013 09:30

AS COISAS E OS NOMES

a curta reflexão que segue você a leria de outro modo, e seria até capaz de perder alguns segundos a pensar sobre ela, se em vez de ser eu a subscrevê-la a atribuísse a um Lao Tsé, a um Confúcio, até mesmo a um Sócrates ou a qualquer filósofo contemporâneo de renome – um José Gil, por exemplo

não faz mal - já é bom que leia
:

“nem sempre faço tudo aquilo em que acredito
mas acredito sempre em tudo aquilo que faço” 


e quem lhe diz que não é também essa a sua situação?
talvez valha a pena parar para pensar


Platero
(h)ortografias

A Emboscada
(conto missionário)

©Joaquim Palminha Silva
(um conto por semana)

            A bola fria da Lua reflectia-se nas águas do rio que, sujas e preguiçosas, serpenteavam pela planície como linha divisória entre os campos plantados de arroz e o verde luxuriante da selva. Terminava assim mais um dia oriental e indiano, fechando no ventre da noite segredos e mistérios...

            Na margem pouco antes dos campos de arroz viam-se geométricas construções em madeira, apresenta-se assim a «Missão da Companhia de Jesus» que, com o seu hospital no centro do perímetro, fora erigida depois de 1624, portanto, há séculos. Tudo isto nos arredores do porto de Mormugão, um dos melhores embarcadouros da costa ocidental do Indostão...

            Esta Lua, única luz que recortava na terra a silhueta de homens, casas, bichos e vegetação, parecia querer avisar o forasteiro que ali, homens de Deus vindos da Europa, estavam prontos a responder ao apelo dos viajantes perdidos e, com o seu saber, cuidar das suas feridas carnais e das suas chagas espirituais...

            Não corria o menor sopro. O vento sudoeste da monção reorganizava forças para açoitar o mar Índico e costas vizinhas?! As sombras que a Lua projectava no solo eram de uma imobilidade fantasmagórica, como se estivessem preparadas para ilustrarem uma história de Rudyard Kipling. Por instantes, nem um ruído, nem ladrar de cão nem piar de ave nocturna... Silêncio e sombras... Ruínas abandonadas... Saudades do porto e dos seus marinheiros das “setes partidas”, saudades escorrendo pelas paredes da vida, fazendo companhia à humidade...

            Mandando parar o seu exército de espectros movediços, o “senhor das trevas” ficou-se a ver uma sombra infantil, ligeira, que deslizava em direcção à porta do hospital franciscano, colocando nesta pequena figura a esperança de tentar, fazendo mal, os franciscanos. O silêncio forçado da noite foi retalhado, como som navalhado, argentino: - A rapariguinha esquelética puxou o cordel pendente do portão, e fez soar a sineta do hospital da Missão!

            Ruínas abandonadas, sombras espectrais sob a luz fria da Lua, águas sujas do rio, tudo isso ficou para trás, recuado... Logo em seguida apareceu no limiar da porta do hospital o Padre Emílio, erguendo uma lanterna à altura do rosto.  A luz que o banhava completamente, mostrava-nos um rosto de traços bondosos, calmo, onde brilhavam dois olhos serenos, de fulgor raro, só a barba negra raiada de madeixas brancas punha gravidade na figura do frade.

            - Que aconteceu? Quem és tu? (perguntou perplexo o jesuíta em linguagem concani).
            - Sou filha de Karabad (respondeu a vozita trémula da rapariguinha, como se a filiação fosse conhecida na Missão).
            - Entra então, minha filha...
            A criança esboçou um gesto assustado...
            - Oh! Não, meu Padre! Vinha buscar-te para viagem...
            - Para quê?

            Com aceno vago da cabecita, apontou com o indicador direito na direcção da margem do rio, da obscuridade... Acrescentou então...

            - Lá adiante... Um padre branco como tu, caiu do cavalo... Está ferido. Pede socorro...
            - Lá adiante, onde é isso, onde está ele?
            - Meus pais recolheram-no... Está deitado na choupana... Mas não sabem tratá-lo... E ele geme e não fala concani...
            - E tu, como sabes que ele pede socorro?
            - Aprendi algumas palavras na escola da Missão....
            - Espera-me aqui... Já venho...

            Cinco minutos depois o bom Padre Emílio regressou e, transportando um estojo de primeiros socorros numa maleta, seguiu a pequena indiana pelos meandros inexplicáveis do rio.

            A rapariguinha esquelética, mostrava-se visivelmente intimidada, receosa, afastando-se com brusquidão e conservando-se a uma distância demasiado exagerada do frade, considerando que lhe estava a servir de guia... Só respondia por curtas palavras às perguntas do missionário que, entretanto, começou a estranhar o comportamento da petiza. Por fim, deixando de a interrogar, Padre Emílio abandonou-se: «Seja o que Deus quiser!»... E assim caminharam em silêncio durante muito tempo (horas?), o padre em largas passadas de experimentado peregrino, a miúda em passinhos saltitantes... Na atmosfera já se anunciava a aurora...

     Súbito, um grito lúgubre rasgou o tecido aveludado dos miasmas da noite. A pequena soltou uma exclamação de terror e o missionário deteve-se, cauteloso... A cerca de uns cem metros, entrevia-se a silhueta de uma pobre cabana de habitantes locais. O grito veio dali.

            - Vamos! (exclamou o missionário) Pode ser que alguém tenha necessidade de auxílio imediato.

            Quando o missionário chegou à abertura que fazia de entrada da cabana, dois vultos semi-nus, agachados sobre uma esteira, ergueram-se a custo. Um casal de camponeses dos campos de arroz vizinhos, de rostos sulcados pela mais profunda dor e pelas fomes mais acutilantes, vigiavam um menino... Ao reconhecer o frade da Missão, a mulher gritou delirante:

            - O  Padre Branco! Oh! O Padre Branco! Nosso filho está salvo! (disse a mulher na língua do gentio, o concani).

            De facto, torturada pelas dores e pela febre, fora aquela criança que lançara o grito lancinante, ampliado pelo silêncio e pela quietude traiçoeira da selva. Padre Emílio ajoelhou o seu busto nobre na esteira de ráfia, à cabeceira do doentinho. O menino partira uma perna ao subir a uma árvore e os seus ossos, ligados por mãos rudes, faziam-no sofrer dores horríveis...

            O bom padre pensou em Deus, invocou o testemunho do «anjo da guarda», distribuído a cada criança na hora do nascimento... «-Felizmente que a Providência me trouxe até aqui! Se não houvesse vindo atrás da menina, esta criança ficaria aleijada para o resto da vida.». A filha de Karabad puxou devagarinho a manga da batina de Padre Emílio:

            - E o Padre Branco que caiu do cavalo? (murmurou a esquelética menina, vendo a demora de Padre Emílio)...
            - Deus o ajudará a esperar... Tenho de tratar primeiro esta alma sofredora... (disse gravemente Padre Emílio).

            A candeia do missionário projectou sobre os rostos suplicantes do casal e a face sofredora do menino uma luz tremente, torturada. A rapariguita seguia com atenção redobrada os gestos do padre, que irradiavam doçura e segurança em partes iguais, demonstrando-se ali a perfeita habilidade dos missionários para salvarem corpos, além de ajudarem a salvar almas! Quando o experiente “enfermeiro jesuíta” se ergueu e sorriu consolador, então os pais do garoto suspiraram de alivio. Depois, disse em concani:

            - Está pronto! Deixem-no dormir sossegado, precisa de descansar. Amanhã passarei por aqui, de forma a ver se precisam de alguma coisa...

            Com a cerimoniosa polidez oriental e hindu, o casal camponês, de mãos postas, cumulou o padre de bênções, bem-hajas, floridas felicidades e não se cansava de lhe chamar «Mahatma» (“grande alma”) ...

            - E agora, desembaraçados deste trabalho, vamo-nos depressa socorrer um irmão aflito, minha jovem guia... (Disse Padre Emílio para a rapariguita, perguntando) Ainda estamos muito longe?
            - Bastante! (respondeu com inesperada timidez a menina)...

            O padre notou a forma evasiva como a rapariguita enunciou a distância e pensou, assim como assim, naquele Oriente profundo, os caminhos do Senhor têm um alcance que nem sempre conseguimos descortinar... Adiante...

            A petiza estremeceu, quando um núcleo de nuvens cinzentas escureceu a Lua. Reteve o missionário, puxando-lhe pelo hábito...

            - Padre... Espera... Mim... Eu...
            - O que dizes? Oh!, pobre menina! Estás cansada? É isso! (exclamou Emílio, deitando um olhar compadecido ao magro rosto da rapariguita) Fiz-te andar muito depressa! Bem sei... Bem sei... Nunca penso nos outros! Perdoa-me! Que Deus tenha piedade de mim! Que egoísta sou! ...
            - Não é nada disso! Não é nada disso!

            Retorquiu a rapariguita com voz chorosa. Entretanto, apertou inusitadamente a mão de Padre Emílio e implorou:

            - Vem, Padre, vem! Voltemos para a Missão!
            - Voltar? ( o padre começou a suspeitar de alguma coisa... Mas o quê?)...
            - Não é verdade! Não está nenhum padre branco ferido em nossa casa... Não há nossa casa... (dizia a rapariguita chorando convulsivamente).
            - Como?! Mas... então... É uma emboscada?!

            Num alcance bastante lúcido, o padre viu a verdade. Os motins, os últimos acontecimentos políticos sobre a permanência dos portugueses naquelas paragens... A alucinação das populações dirigidas por chefes fanáticos, imaginando que os religiosos missionários eram conduzidos pelo frenesi da morte e, remendos de cor na ocupação do território, não passavam de farrapos ao serviço dos soldados coloniais... 

            - Sim! Os homens que andam com espingardas na selva, querem fazer-te prisioneiro! Querem pedir dinheiro a Toma pela tua liberdade... 

            Dos lábios do jesuíta Emílio não saiu uma única palavra de censura...

            - Está bem, minha filha! Dou graças a Deus por ter tocado o teu coração, ainda livre das maiores maldades... Mas não é Toma que querem dizer, é Roma! A poeira nebulosa que vêm na religião de Jesus Cristo, faz imaginar que alguém daria dinheiro pela minha libertação... Ingenuidade!

            Caíram mais algum tempo em silêncio. A rapariguita mal reprimia os soluços dentro do seu frágil peito... De repente, vinda não se sabe de onde, a coragem empurrou-a e as palavras começaram a sair:

            - Padre, eu sou órfã. Não tenho pais... Os revoltosos que me abrigam, querem mal aos portugueses... Não os querem cá... Mesmo aos Padres Brancos, que não andam armados nem fazem guerra. Dizem que os Padres da Missão vieram roubar crianças para as levar para o País do Sol Poente, onde as assam e comem...
            - E tu acreditas? 

            Perguntou o jesuíta, com um sorriso escondido. A pequenita juntou as mãos, como fazem para saudar os indianos...

            - A princípio acreditei... Mas, agora... Quando te vi curar aquele menino, filho de casta inferior... Foste tão bom para aquele miúdo... Acredito que os padres da Missão não comem meninos!

            A Lua descobriu-se, passaram horas e era já manhã... Ao fundo a Missão, com a luz de presença sempre acesa... Sempre acolhedora...

            - Deixa-me ficar na Missão, Padre! Eu não quero ir para a selva aprender a dar tiros...

            Com lágrimas embaraçadas de desgosto, Padre Emílio explicou que não a podia deixar entrar, sem autorização de algum familiar ou das autoridades indianas, locais... Depois de ter dado passagem ao vulto angustiado do bondoso e austero missionário, a porta da Missão fechou-se na face da petiza, figurinha tocada da graça de Nossa Senhora, num mundo que se desgraçava... Dizem que até morrer o Irmão Emílio, nunca mais falou concani, nem português nem nada!

*

            ...Naquele hotel de Manhattan (Nova Iorque), Guilherme acabava de ouvir a história que explicava o rudimentar português da distinta indiana e intérprete da ONU, a Senhora Karabad... Que comovida, de olhar enternecido para o jovem lusitano, rematou a narrativa dizendo:

            - O tecto da alma é a evocação!