Em memória de Mário Barradas (1931 – 2009)
(Foto de Paulo Nuno Silva retirada DAQUI)
«Mário Barradas e Sacuntala de Miranda fizeram parte de um pequeno grupo de micaelenses que no desolado início dos anos cinquenta ficou como referência na luta contra a ditadura.
Mais novo, ainda apanhei o seu rasto e a respectiva reputação quando cursava o Liceu de Ponta Delgada. Quantas vezes não me disseram então em S.Miguel: «Olha, se não tomas juízo ainda te acontece como à Sacuntala e ao Mário Barradas». Aconteceu, claro.
Há poucos anos a Sacuntala, que também já se foi, organizou uma festa de anos , e o Mário Barradas leu uns poemas perante os amigos que se juntaram.
Foi como um sinal de adeus.»
josé medeiros ferreira in Bicho Carpinteiro
«Há muitos anos, o Inverno de Évora era muito silencioso — foi numa dessas noites que nos encontrámos nas arcadas, perto da Praça do Giraldo; estávamos os dois sozinhos e percorremos aquelas ruas que estavam no mapa habitual dos noctívagos. Nessa noite convenceu-me a escrever uma peça para o Centro Cultural de Évora. Eu não gostava de teatro. No dia seguinte telefonou-me para a universidade e perguntou-me: «Já está pronta?» Comecei a escrevê-la nesse mesmo dia e, uns meses depois, estava em cena no Teatro Garcia de Resende, não apenas com um notável grupo de actrizes (a peça era apenas para mulheres) mas também com a encenação de Luís Varela (o Mário adoecera entretanto). A voz, ele tinha uma voz magnífica – todos os de Évora recordam como, nos recitais episódicos, ele dizia a poesia de Nemésio, a de Eu Comovido a Oeste. Era ainda o seu lado açoriano, aquele que não se esquece. Em Lourenço Marques incluí-o como personagem. Encontrámo-nos várias vezes num teatro, num lugar ou noutro. Mas recordarei sempre essa noite do Inverno de Évora. E a sua voz.»
Francisco José Viegas, in Origem das Espécies
«Mário Barradas foi um açoriano micaelense especial. Encenador e actor. Incansável, de uma energia e entusiasmo que “contaminavam” benignamente quem o rodeava. Entregou a sua vida ao teatro. Foi o pioneiro da primeira grande e séria aventura de descentralização teatral depois de Abril, criando o Centro Cultural de Évora no Teatro Garcia de Resende (hoje CENDREV), onde viria a funcionar uma também pioneira escola de formação teatral, responsável pela profissionalização de muitos jovens actores e de uma grande parte dos técnicos de teatro e demais artes do espectáculo que encontramos a trabalhar um pouco por todo o Alentejo.
Durante muito tempo e porque por vezes tenho sorte, quase sempre que ia a Évora fazer fosse o que fosse, tinha o prazer de o encontrar na rua e inventávamos tempo para um café e para pôr a conversa em dia.
Embora nos últimos tempos soubesse que era muito improvável encontrá-lo ali, continuava a ser possível... agora não será mais.
As minhas visitas a Évora serão mais tristes!»
Samuel in “CANTIGUEIRO”
«Em 1975 o Mário Barradas convidou a minha mãe para fazer parte da fundação do Centro Cultural de Évora (o grande modelo da descentralização do teatro em Portugal). Com ela fui eu e os meus irmãos e o meu caminho ficou em grande parte aí traçado. Cresci a ver um teatro com uma função social, com um propósito específico. Vivi o sonho deles de que essa arte iria transformar o mundo. Na realidade não transformou, mas em mim esse sonho ainda não morreu. Já não através de ideologias políticas, mas sim de uma esperança de acordar o melhor do Humano que há em todos os Seres. E hoje com a partida do Mário percebi que foi ele o grande responsável por isso. É a ele que devo o saber o que quero dizer com a arte que faço e o meu entendimento do mundo através dela. OBRIGADO MÁRIO.»
Rui Rebelo, in ANACRUZES
À boa memória que guardo da Alice, junto agora a que o Mário me deixa. Até que voltemos a almoçar juntos, amigos!»
JC, in 20 NOVEMBRO, 2009 16:42
«Uma energia brutal que assolou a cidade de Évora nos quentes anos setenta... uma força da natureza que encantou e enriqueceu estas paragens... nunca percebi porque carga de água se apaixonou por estas terras... mas sei que foi por isso que aqui se fixou... sem dúvida alguma, porque o conheci, o vi e o senti em momentos chaves da minha vida - um dos maiores ACTORES de teatro de que tenho memória (como poderei esquecer as suas representações Brechtnianas no inicio do CCE) ... também encenador, sem dúvida e pedagogo, pois sim ... mas também e sobretudo um REVOLTADO, um intelectual que sempre se sentiu incomodado com a mesquinhez e a hipocrisia do sistema ... o PCP teve a sorte de o ter nas suas fileiras, mas nunca o soube aproveitar de verdade ... aliás os partidos são completamente ultrapassados porque não estão preparados para receberem no seu seio cidadãos do mundo, desta dimensão ...
Foi-se um pioneiro, fica a sua memória e sempre a esperança que outros cérebros e homens e mulheres invulgares, escolham esta cidade para não morrermos de tédio ... a propósito para onde vai Évora? Que escuridão...
in 19 NOVEMBRO, 2009 23:19
o palco chora
este vazio que o fere
como um cair de pano
em sala muda
ecoa inundado
por uma vida eterna
em memórias de quem quer
transformar o mundo.
não me cruzei contigo
mas ficou gravada
A menina Júlia
Obra levada aos meus sentidos ávidos
por uma visão de quem pode,
Transportar mensagens,
Abalar consciências,
despertar ciências...
sabe-me, agora, a pouco...
resta-me a sensação
de que serás sempre
UM HOMEM cuja obra ultrapassa
as escassas notícias de perda.
Pois assim seja!
que nada perdemos contigo!
apenas apreendemos que ganhar
é ser recordado...
Um Bem-Hajas Mário.
abraço do vale
DUARTENOVALE

5 Comments:
que linda homenagem... um grande Homem sem qualquer dúvida...
Logo após o 25 de Abril, e a descentralização do teatro e a consequente criação do Centro Cultural de Évora, da qual faziam parte um leque incrível de actores como o Paços, a Teresa e o Mário entre outros, eu uma criança de 8 anos fui levada ao teatro pela minha professora de teatro D. Arlete.
A primeira peça da Companhia de Teatro Profissional de Évora, era um luxo para mim, para os meus colegas e para a cidade.
Entrei nesse dia pela primeira vez no teatro Garcia de Resende, então muito mal tratado e a necessitar de muitas obras. A peça penso que o “28 de Setembro” era forte, tinha muito texto e perdoem-me os actores não me lembro de quase nada mas a figura daquele homem imenso, de voz rouca e grossa, com gestos forte e precisos, ficou na minha memoria até hoje.
Posso ainda agora fechar os olhos e vê-lo no palco a representar para um bando de miúdos, como se fossem o publico mais entendido do mundo.
Esta foi a minha primeira imagem de Mário Barradas, depois outras se seguiram no palco ou um pouco por toda a cidade, mas esta sempre se sobrepôs.
Talvez por isso eu me tenha apaixonado por esta nobre arte, talvez por isso eu tenha ido para a biblioteca pública ler outras peças de teatro, talvez por isso eu tenha enveredado pelo mundo das artes em geral.
E talvez por isso defenda hoje que a arte não necessita de ser simples ou primaria para que o publico a entenda, tem sim de ser honesta e clara.
Ao Mário devo isto como pessoa, já como eborense devo-lhe, eu e todos nós, muito mais, mas essa divida ficará por pagar, quem sabe um dia!
"a propósito para onde vai Évora? Que escuridão..."
Fica na memória os fabulosos anos 70, 80 e 90.
Que os feios porcos e maus não levem muito tempo por cá e que o futuro seja rápido a chegar!
Obrigado Mário Barradas
Um Grande Homem do Teatro!
Ao Mário Barradas o meu forte e sentido abraço de sempre para sempre. Dizem-nos que partiu para lá, mas sei que nunca deixará de ficar, como só ele sabia fazer.
Devo-lhe a palavra amiga, os ensinamentos de inconformado, mas lutador pela justiça em todos os sectores da vida.
O Mário é um artista um universal daqueles que ninguém consegue esquecer.
Mais do que meramente açoriano de eleição foi um elegante e feroz homem do mundo das artes e do espectáculo, um humanista sem papas na língua - sem cidades e sem aldeias.
Tb Évora faz parte desse grande universo do Mário Barradas, ele há por cá um palco que sempre o recordará, cuja presença ali deixou gravada na memória de todos nós.
Bravo! Obrigado Mário, bravo! fantástico espectáculo!
António Veladas
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