19 Setembro 2012

(trágica história da História, velha de 440 anos)

Desaparecimento do novelista e poeta Francisco de Morais
(na porta do Rossio de S. Brás, em Évora)

©Joaquim Palminha Silva

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Regressou Francisco de Morais a Portugal cerca de 1544, e veio a beneficiar de uma tença de 12$000 réis, galardão que lhe foi concedido por D. António de Noronha, em paga dos muitos serviços que prestou à família nobre dos Linhares. Há quem advogue que Francisco de Morais chegou a tesoureiro de D. João III, mas outros entendem que é confusão com outro figurão do mesmo nome, formado por Salamanca (Espanha).

A verdade verdadeira é que Francisco de Morais professou na Ordem de Cristo, em 17 de Abril de 1566, e exerceu nesta instituição as funções de comendador (1). Fosse como fosse, não restam dúvidas que Francisco de Morais não era um desconhecido nos meios da Corte, nem ignorado nos círculos dos homens de artes e letras da época. Esta é, de resto, a opinião do historiador eborense António Francisco Barata que, preocupado com a misteriosa existência e não menos misterioso desaparecimento do autor do «Palmeirim», garante-nos que a sua curiosidade foi motivada por Camilo Castelo Branco, que escreveu algo de sumo interesse sobre Francisco de Morais, sua trágica vida e desaparecimento, «nas Noites de Insónia ou nos Serões de S. Miguel de Seide» (2).

Segundo Camilo Castelo Branco, Francisco de Morais terá escrito uma sátira bastante azeda (penso eu) que feriu os brios da Casa de Bragança (família poderosa no Alentejo e no Reino). Os senhores desta “Casa”, tal personagens das histórias do escritor brasileiro Jorge Amado, talvez houvessem contratado uns “jagunços” para darem uma sova ao “coitado”, que os andava a incomodar “até dizer chega”, como se costuma dizer. Porém, o excesso de zelo dos caceteiros fez com que o “trabalhinho” fosse demasiado fácil. Francisco de Morais, ao que escreve Diogo Barbosa Machado (por informação directa de algum sabedor), já passava dos setenta anos (3), pelo que acabou por sucumbir, desgraçadamente, ali mesmo, na vizinhança da porta do Rossio de S. Brás.

Francisco de Morais vivia então em Évora (teria aqui família?), o que também não é de estranhar, dada a importância da cidade (aqui assentou arraias a Corte de D. João III, 1521-1557) e, last but not least, na 2ª metade do século XVI muita família, com meios para isso, veio para a Província fugida à «peste grande», trazida pela rataria hedionda do porão das naus para o porto e daí para cidade de Lisboa, semeando na capital do Reino horror e mortandade (1569-1570), tragédia que levou alguns anos a extinguir-se. Portanto, nada mais natural que o novelista e poeta aqui se fixasse e, entretanto, fosse adiando outro destino.

Vai daí, o investigador António Francisco Barata compulsou quantidades substanciais de obituários das Freguesias de Évora, bem como os da Misericórdia, datados de 1572 a 1573, pois tudo lhe indicava que um cadáver abandonado na via pública teria sido sepultado pela Santa Casa da Misericórdia de Évora… Diz-nos que não viu os obituários da Sé, pois, «ou não existem, ou não se encontram.».

Não sei, passados estes séculos, se os eborenses actuais compreendem o que de facto aconteceu: - Os poderes públicos eborenses já deveriam andar atacados da “fatal sonolência transtagana”, de que tanto falou Fialho de Almeida, para assim, sem mais nem menos, transformaram um intelectual renascentista, membro da Ordem de Cristo, com obra publicada de Paris a Veneza, de Toledo a Londres, talvez estimado por nobres e Reis, num “caso de polícia”…por resolver!

António Francisco Barata, que era homem avisado, prudente sobre novelas de imaginação, incluindo citações a metro, afiança-nos que um véu de mistério «esconde, pois, o caso» … Enfim, se não foi morto de morte matada, o que deu sumiço à existência de Francisco de Morais, para assim se evaporar na atmosfera?

Adiante, no mesmo folheto, António Francisco Barata dá esta notícia, com o ar mais natural do mundo: «No mesmo local do Rocio de Évora encontrámos que fôra achado morto um homem, que a Misericórdia enterrou em 1574; mas era este um desconhecido e um ignorado.». Seria?

Não podemos renunciar à formulação de umas quantas perguntas pertinentes, atiradas daqui à posteridade e, já agora, a investigadores com meios e acessos a investigações que, por ora, me estão vedadas. Ei-las…

Se os Braganças tinham um plano preciso para darem sumiço ao escritor e poeta Francisco de Morais, homem conhecido e com prole numerosa, não haveriam de providenciar para que o corpo desaparecesse ou, se descoberto, ficasse irreconhecível? Não haveriam de prevenir todas as possibilidades de que lhes viessem a apontar o dedo?

Se ninguém sabe de fonte credível a data segura da sua morte, supostamente violenta, quem nos diz que o cadáver encontrado no Rossio em 1574 e mencionado por António Francisco Barata, provavelmente irreconhecível, não era o do infeliz autor do «Palmeirim»?

Assim ou assado, que importância tem hoje um crime por descortinar na cidade de Évora de 1572 ou 1574? Tem, dizemos nós!

Não se compreende que tanto investigador, Universidade de Évora incluída, se tenha esquecido de levantar o véu… Chega de histórias desconcertantes a povoarem a cidade!

E já agora, honrem a memória do escritor! Num dia destes, abram a cinzel umas palavras em placa de mármore no Rossio de S. Brás, com o seu nome…

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(1) – Vd. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XVII
(2) – António Francisco Barata, Évora Antiga / Noticias colhidas com afanosa diligencia […]
, Évora, 1909.
(3) – Diogo Barbosa Machado, Biblioteca Lusitana
,4 vols., 1741-1759.